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UMA JANTINHA BÁSICA

Palavra do dia:

Gelo: Tahlak

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Desde que cheguei a primeira vez aqui no hotel, a camareira sempre foi muito simpática comigo. Aos poucos fomos nos tornando amigas e ela tem sido importante no meu dia a dia. Imagine vocês que passo meus dias praticamente sozinha pois o Rodrigo chega somente à noitinha, chega um momento que é preciso conversar com alguém neh? Essa moça então, tem me feito uma boa companhia. Em reconhecimento à sua amizade, aceitei o convite de jantar na casa dela o que foi uma experiência muito legal, então resolvi contar à vocês. Vou omitir os nomes por uma questão de respeito ok?

Combinamos de nos encontrar em frente a um supermercado em Suez, aquela cidade perto daqui que já comentei anteriormente. Pedi ao motorista que me pegasse no hotel as 17:30 hs. pois pretendíamos dar uma voltinha pela Cornish (beira-mar) antes da janta o que acabou não acontecendo. A menina é uma Muçulmana de 21 anos e por esta razão meu motorista (cristão) estava preocupadíssimo, cheio de recomendações…

- Miss Andréia, se a casa estiver com muitos homens não entre;
- Miss Andréia, cuidado para eles não te prenderem dentro da casa;
- Miss Andréia se a sra. se sentir mal ou com medo me ligue…

 Obviamente que já estando acostumada com esta rivalidade religiosa não dei muita bola. Achei legal a preocupação dele mas sabia que ela era uma moça de bom coração e que tinha as melhores das intenções comigo. Ele me ligou quatro vezes aquela noite e não sai da frente da porta do prédio a noite inteira.

 “ Aparentemente, segundo os cristãos, os muçulmanos tem o hábito de levar moças de outra religião para suas casas e gravar vídeos de sexo com elas com a intenção de forçá-las a se converterem ao Alcorão.”

 Bom, nos encontramos no lugar marcado e a minha amiguinha estava com uma outra moça que também trabalha aqui no hotel, que não falava uma palavra em Inglês. Não que ela seja nenhuma expert, mas pelo menos a gente se entende. Tive a impressão que o motorista foi fazendo um interrogatório nela até a casa, mas, não entendia nenhuma palavra mesmo, então somente ria.

Típico prédio egípcio

No caminho até o prédio, me senti como se estivesse num labirinto dentro do lixão público da cidade. De onde vem tanta  sujeira, meu Deus!!! Passamos por ruas de chão batido cobertas por sacos e mais sacos de lixo. Acho que o lixeiro não curte muito trabalho por aqui! Quando cheguei, confesso… Fiquei com medo de entrar. O prédio de quatro andares parecia ser uma ruína dos tempos da Cleópatra. As paredes rachadas cobertas apenas pelo reboco, tijolos quebrados e a escada em estado precário de conservação.. Mais tarde fiquei sabendo que o pai dela era o arquiteto. Estava explicado já que ele é carpinteiro e segurança de uma escola.

 Quando entrei na casa senti uma certa tristeza. Era tudo muito pobre, velho e danificado. Estavam todos ansiosamente me esperando, como se fossem receber alguém da realeza. Percebi naquele momento como foi importante para aquela menina me receber em sua casa. O pai estava apenas aguardando minha chegada para ir trabalhar, a mãe estava na cozinha preparando a janta e o irmão caçula parado que nem um dois de paus, congelado, esperando por mim. 

Galabeia

Sentei-me num sofazinho todo rasgado, em uma salinha separada. Foi a primeira vez que vi os cabelos da moça pois ela  costuma andar sempre com o véu. A outra moça não tirou o hijab pois o pai estava presente. Ficamos conversando por alguns instantes e aquela situação de desconforto inicial foi passando lentamente. A mãe da Dina é uma senhora de 47 anos bastante conservadora. Ela estava usando uma galabeia ( espécie de vestido inteiro) bastante velha, mas parecia que ela havia escolhido aquela roupa cuidadosamente. Infelizmente seus traços eram de uma senhora de 70 anos.

Os mais velhos por aqui parecem não dar a menor importância para a aparência. Aliás, minha teoria é que as mulheres somente se cuidam até o dia do casamento. Acho que devido ao baixíssimo grau de infidelidade, elas ficam tão seguras que deixam de se importar com a vaidade. “

O pai também não estava exatamente conservado em formol, por assim dizer, seu semblante era bastante envelhecido. Apenas descrevo isto para que vocês tenham uma noção da humildade e da pobreza das pessoas por aqui, sei que as aparências estão longe de descrever o coração das pessoas, ao contrário, fui extremamente bem recebida por todos naquele lar.

Não eram nem 18:30 hs. quando a senhora serviu o jantar. Detalhe: Eu havia almoçado as quatro horas da tarde. Beeemmmm legallll!!! A mesa de ferro, parecida com essas de bar, estava coberta com jornal. Haviam quatro tigelas de arroz branco, quatro de peixe cozido com tomate picado e uma única tigela de uma salada verde que confesso nunca havia comido antes. Agora a pergunta: Cadê os pratos?? Parece que por aqui este artefato não é muito apreciado. Cada um come direto da tigela, utilizando-se de uma colher e um garfo. Esperei que todos começassem a comer para depois fazer igual. Confesso que o peixe estava bem bom, comparado com as refeições típicas do hotel, mas em compensação a saladinha…

Percebi que elas não tomam líquidos junto com a comida, mas para mim isto é impossível. Pedi a minha amiga por um copo d’água sem se quer passar pela minha cabeça, de onde esta viria. Advinha?? Isso mesmo, direto da torneirinha básica!!! Talvez aí no Brasil isso não seja o pior dos problemas, mas por aqui meus amigos, acreditem, é sério o negócio. Não tinha como eu reclamar né, então aceitei a água e tomei uns três golinhos para não fazer desfeita.

Comi a metade do prato de arroz e metade do peixe, enquanto isso a senhora colocava as mãos na comida da outra menina para tirar as espinhas, assim, como quem enfia o dedo no prato de sopa dos outros. Super higiênico! Graças a Deus ela não fez isso comigo, mas ficava me alcançando as folhas da salada (com as mãos) insistindo para que eu comesse. Aquilo tinha gosto de capim com terra e eu fazia aquela carinha de chega por favor. Como eu estava de pança cheia, não conseguia mais comer e isso foi inaceitável para elas. Ficava repetindo que estava ótimo mas que realmente não cabia mais. Aí inventei uma história de que brasileiro come pouco e que por isso a gente tem o estomago pequeno. Bom, colou! Mas a mãe dela não gostou muito.

Voltamos a sentar na sala e neste momento entra novamente o pai pela porta. Não entendi bem, mas ele sentou ao lado da mesa e começou a conversar comigo. Fui entender depois que ele valtara o trabalho por minha causa! Te mete!!! Tentava me ensinar o árabe insistentemente, mas acabou se tornando um bom professor. Conversamos sobre tudo. Sempre os mesmos assuntos sobre religião, filhos, cultura e obviamente sobre futebol! De repente a mãe me pergunta assim:

- Você usa biquíni???
- Nãooooooo!!!!! A Andréia detesta biquíni. – Respondeu a minha amiga antes de eu poder pensar a respeito! 

Fazer o que neh?

 - Não senhora, não uso não! (ahãmmmmmm!!)

O papo sobre religião com o pai também foi difícil de ser acertado porque eles não entendem a falta de crença dos outros. Mas deu tudo certo porque mãe disse que eu tinha um bom coração e era tudo o que importava! Ponto para mim!!!

Enquanto os assuntos corriam, eles não paravam de oferecer comida. Era frutas, sucos, salgadinhos que não acabavam mais. Mais tarde fiquei sabendo que eles fazem isso para que os convidados não pensem que eles são mesquinhos. Muito curioso isso. Cada não que eu dizia era um problema então acabei aceitando tudo o que vinha. Não preciso dizer que meu estômago não estava muito feliz com a situação. Quando cheguei em casa ele se vingou claramente!

Na hora de ir embora eles pediram para que tirássemos algumas fotos, enquanto a mãe me mostrava TODAS as fotos de casamento. Ela foi trocar de Galebia para tirar as fotos. Para agradar, tirei algumas fotos com o véu na cabeça. Me disseram que eu tinha tudo para ser muçulmana (quem me conhece pode começar a rir que eu deixo), que eu era muito “gamila” (bonita em árabe). Tá bom!!! Tiramos as fotos e logo em seguida nos despedimos.

Presentinho Árabe

 Eu confesso que voltei para casa muito feliz. Havia passado por uma experiência única e muito divertida. Tive que prometer voltar para uma nova visita e desta vez, levar o Rodrigo (hehehe). Eles foram muito gentis e educados comigo, me respeitaram muito, ao contrário do que se pode imaginar. Me senti realmente honrada pelo convite. Até ganhei um presente. Uma espécie de porta-jóias de porcelana com algumas palavras do Alcorão. Segundo a tradição, ele serve para colocar docinhos para os visitantes do bebê recém-nascido. Será que era algum tipo de pressão??? Hummm…

Beijão e até a próxima.

MUÇULMANOS X CRISTÃOS

Palavra do dia:

Deixa pra lá: Malesh

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Olá

Hoje vou falar de um dos assuntos mais polêmicos por aqui é sem dúvida a rivalidade entre os muçulmanos e o cristãos. Como ainda não adquiri experiência suficiente neste assunto, vou transmitir minhas impressões iniciais à vocês.

 Cerca de 90% da população egípcia é muçulmana, o que torna a vida dos cristãos muito complicada. Pelas histórias que me contam por aqui, os cristãos foram muito discriminados ao longo dos anos, sendo afastados do convívio social jogados para fora das cidades. Hoje, eles vivem em áreas precárias, geralmente em volta do lixo, o que fez com que a reciclagem se tornasse sua principal fonte de renda, e acreditem, eles ganham muito dinheiro porque lixo não falta por aqui!

 A violência entre eles, ao contrário do que dizem por aí, ainda é muito gritante. Um bom exemplo foi no feriado natalino cristão (7 de janeiro) onde um muçulmano atirou em seis cristão que saiam da igreja a queima-roupa. Foi uma tragédia que estragou a festa de muitos por aqui.

 Dia desses estávamos voltando de um restaurante com nosso motorista que é cristão e fomos parados por uma barreira policial.

reza muçulmana

 Por alguma razão relacionada a documentação do veículo, o policial solicitou ao motorista que descesse do carro e entrasse dentro da sala para que conversassem. Quanto o oficial viu que o outro não era muçulmano… Imagina o que aconteceu?? Ele nos segurou lá por cerca de uma hora!! Tá certo, não vou mentir para vocês, nosso motorista não foi exatamente educadinho… Mas certamente este não foi o problema, pois ninguém respeita muito a polícia por aqui, a religião dele era o problema! Certo momento o policial veio falar conosco (muito educadamente devo dizer) e nos explicar a situação. Ele falou assim:

 - Esse motorista de vocês me insultou. Ele não é um cara bom, muito má pessoa. Tenham muito cuidado com ele! Blá, blá, blá…

 Isso ele deduziu em dez minutos??? Nossa, que cara perspicaz heim??

 Devo dizer que foi uma situação ridícula. Um não baixava a guarda para o outro simplesmente porque tinham crenças diferentes. Bom, acabamos sendo liberados mas foi certamente, um episódio muito triste.

 Existem muçulmanos e cristão que são amigos e se respeitam, mas a maioria deles não se suporta. Eles se ignoram, não se  cumprimentam e geralmente falam mal um dos outros. Para você ter uma noção da discriminação, nenhum jogador da seleção egípcia de futebol pode ser cristão. Existem empregadores que não os contratam, etc… Quando uma igreja é construída, imediatamente duas novas mesquitas são construídas ao lado, com suas caixas de som apontadas para ela. Se você observar bem ao passear pelo Cairo, logo logo se dará conta disso.

 Casamento entre muçulmanos e cristãos então nem pensar!!! eles podem casar com estrangeiros sem problemas, mas entre  os egípcios de diferentes religiões, isso é inimaginável. O interessante é que eles sabem de longe quem é quem. Obviamente que as mulheres cristãs não usam o véu (hijab) na cabeça o que facilita a identificação, mas entre os homens, para mim particularmente, é muito difícil identificar. Eles sabem ou pelos nomes, ou porque os cristãos geralmente possuem tatuagens identificativas ou pelo cumprimento social.

 Cristãos não utilizam “Assalamu Aleikum” que significa “ Que a paz de Alah esteja com você” e sim, olá, como vai? Etc… Possuem tatuagens em forma de cruz nos pulsos ou em partes visíveis do corpo. Os muçulmanos possuem nomes como Abdula, Mohamed, etc… Mas para mim é bem complicado, portanto para não me dar mal, eu uso a palavra “Salam” que significa Paz ao cumprimentar.

quarto minguante mesquita

 O simbolo islâmico é o quarto crescente, uma lua figurativa aparente no topo de todas as mesquitas, o dos cristãos obviamente a cruz. Os véus utilizados pelas mulheres também são simbólicos embora para nós, controversos (falarei disso em um outro post). Ambos acreditam em jesus Cristo, porém um como o filho de Deus e outro simplesmente como um profeta. Os primeiros são seguidores do Alcorão, livro escrito por Mohamed, seu principal profeta e os segundos acreditam na Bíblia (literalmente).

 Dificilmente no Brasil as pessoas perguntam a religião uma das outras ao se conhecerem. Aqui esta parece ser uma das primeiras questões. Quando digo que não sou religiosa, imagina a cara deles!!! Eles não entendem minha opção. O diálogo é mais ou menos assim:

 - Andréia, qual sua religião?
- Nenhuma. Apenas acredito em Deus.
- Como assim?
- Assim. Acreditando!
- Hummmmm!!! Não entendi! Você é Cristã? Em qual Deus você acredita??
- No mesmo que você!
- Ah tá! Ahã!!! (fazendo uma cara de reprovação)

 Rapidamente eu troco o assunto neh!!!!

 Existem muitas diferenças entre eles, mas nenhuma justifica a violência, a discriminação, a ignorância que presencio por aqui. Nós estrangeiros, somos tratados como diferentes mas não como inferiores, ao contrário, muitas vezes somos admirados por eles. É muito triste ver um dos berços de nossa humanidade possuir um atraso tão grande social. Parece que esse problema jamis será resolvido, eles mesmos não fazem a mínima questão para isso. Uma pena!!

 

Beijos 

 

 

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