UM SEGUNDO DE LIBERDADE

Estava eu sentada ao sol, reclamando da vida, pensando o quanto ela está monótona e sem rumo quando por um minuto, lembrei-me das mulheres no Egito e me dei por conta de como eu estava sendo fútil e mal-agradecida.

 Pensei em como elas devem estar se sentindo após a revolução ocorrida em seu país. Será realmente que para elas alguma coisa mudou? Será que agora elas serão tratadas dignamente e poderão despir-se de seus dolorosos trajes negros? Acho muito difícil.

Mesmo que o país mude, cresça, torne-se democrático, ainda sim, as mulheres serão sempre como sombras. Vivendo atrás das crenças de sua religião pregada pelos homens. Acreditando que as ordens divinas devem ser cumpridas e que o mundo é assim porque “Alah” assim o criou. Elas terão que continuar cobrindo suas faces e sua alma. Deverão seguir omitindo um sorriso, um sonho ou um orgasmo, ou ainda pior, fingindo tê-lo.

Liberdade

Talvez as mudanças no Egito tragam às mulheres ainda mais frustrações. Quando finalmente a oportunidade de liberdade acende sua tocha, vêm “Alah” e apaga cruelmente a chama feminina. Isso porque, para os muçulmanos o que importa não são as regras dos homens, mas sim àquelas descritas no Alcorão, ditadas pelo profeta. Se depender deste livro, as mulheres permaneceram do jeito que estão, em uma linha abaixo dos humanos.

Mesmo fazendo suas reivindicações na Praça Tahrir, mesmo que por um instante elas tenham sido vistas como iguais aos olhos do mundo, assistidas nas telas da CNN por milhões de tele-expectadores que durante aqueles minutos, não perceberam que na verdade, elas estavam reivindicando por muito mais do que uma mudança de governo. Elas gritavam pela sua liberdade. Mesmo aquelas que não têm consciência disso. Mesmo aquelas que não concordam com a tal liberdade. Naquele único momento elas puderam extravasar sua raiva. Mesmo que por apenas algumas poucas horas, as mulheres egípcias se sentiram iguais.

Para nós, mulheres livres e modernas, fica muito difícil entender. Mas se pararmos para pensar, ainda sim, nós também possuímos nossas algemas. Hoje nós temos a obrigação de ser multi. Trabalhar, cuidar do filho, da casa, manter-se linda e magra e tentar manter acesa a chama da paixão no casamento. E tudo isso fomos nós mulheres que buscamos ao queimarmos nossos sutiãs. Para nós, abandonar a carreira para ficar em casa hoje é uma afronta, mas mesmo assim algumas de nós o fazemos. Será que a obrigação de ser uma super mulher não pode ser comparada à escravidão da mulher muçulmana? Claro que, dada as suas devidas proporções.

O que quero dizer é que assim como nós, que deixamos chegar num ponto quase insuportável as nossas obrigações femininas, elas também deixaram a opressão masculina chegar a esse ponto. O grande problema é que falta coragem a elas. Falta voz e compreensão do que é ser realmente livre. Elas têm muito a perder ao reivindicar seu espaço. Ao se rebelar elas podem perder seus filhos, seus pais, a sua vida. O medo dessas mulheres é mais forte que o sonho de ser livre. Elas não sabem o que é ser livre, então porque arriscar?

Conheci poucas mulheres muçulmanas liberais no Egito. Algumas até deixaram de usar o véu, mas as conseqüências foram altas. A sociedade é muito cruel para elas, não aceitando suas decisões. O que mais uma vez me leva a concluir que o problema não está no véu, mas sim em ser mulher. Porque mesmo cobrindo as suas cabeças elas são humilhadas, escravizadas e torturadas, sem ele, são tratadas da mesma forma. Apenas os homens mudam as desculpas para tal crueldade.

Portando amigos, me envergonho de reclamar da minha vida. Estou aqui, tomando livremente minhas próprias decisões, tendo apenas que lidar com as minhas conseqüências, enquanto que aquelas mulheres sofrem sem ao menos decidir por nada. Apenas sofrem por serem do sexo dito como frágil. Será mesmo fragilidade agüentar tanta covardia? Será mesmo inferioridade suportar tanto em prol da família e de seus costumes? Sinceramente não sei. Quando nascemos em um berço livre, é difícil julgar os que se deixam escravizar.

Beijo à Todos!!!



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