LAR DOCE LAR

   

Palavra do dia:

Bom Dia: SabaaH al-Khayr

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Eu e meu marido começamos uma nova empreitada árabe: procurar um lar doce lar no Cairo. Parece fácil se pensarmos em nossas casinhas brasileiras, mas por aqui, é muito diferente. 

Prédios Inacabados Cairo

Em primeiro lugar não existem prédios bonitos por aqui. Não, não estou exagerando… Para nosso gostinho básico, isso aqui está bem longe do ideal. No Brasil temos todo tipo de opções, claro que depende do tamanho do seu bolso, mas mesmo com pouca grana, você sempre encontra um lugarzinho para chamar de seu.  Na verdade o que ocorre é o seguinte: eles não estão muito interessados na estética do prédio. As cores geralmente são bege, marrom ou cor de telha. Você tem sorte se o prédio tiver o acabamento externo, pois o imposto sobre as construções somente é cobrado se a mesma estiver finalizada. Adivinha???  Ninguém termina nada, fica tudo “quase” acabado. Geralmente eles deixam o último andar incompleto ou não pintam os prédios, etc… Bonitooooo! 

Em segundo lugar o que eles chamam de área comum ou condomínio é muito diferente do nosso conceito. Estamos acostumados a pagar uma taxa para manutenção do prédio, consertos gerais e limpeza não é mesmo? Por aqui é igualzinho!!!  Paga-se uma taxa mensal para a administradora, porém  a manutenção, o conserto e a limpeza simplesmente não ocorrem!!! Para que o dinheiro então??? Ahhh , isso é outra história neh? 

Quando você entra no hall de um prédio egípcio é preciso tomar muito cuidado. As chances de você pegar tétano são consideráveis. Aos que sofrem de problemas respiratórios é aconselhável manter distância e aqueles que são por natureza  desastrados, por favor, atenção redobrada. 

 Eu explico: 

  1. Fios, arames e tomadas estão, geralmente, expostos e saltando das paredes. Para todo canto que você olha eles estão lá, prontos para atacar você. O risco de levarmos um choque é bastante alto, portanto, é melhor caminhar no escuro mesmo, mas cuidado, não vá tropeçar nos arames espalhados pelo corredor. Uma lanterninha é o ideal.
  2. Poeira, terra, areia e mofo pelos corredores são um prato cheio para os asmáticos. Claro que existe a possibilidade de escorregar também porque o chão fica um tanto quanto deslizante. Há lixo por todos os lados. Papel de bala, casca de frutas, chicletes e derivados estão espalhados pelas escadas e simplesmente ninguém se dá ao trabalho de recolher. Evitem usar o corrimão para apoio. O encardido nas mãos poderá ser irreverssível.
  3. Por último, mas não menos importante, são as basculantes ou janelinhas localizadas nas escadas. Elas, além de enferrujadas, caem sobre as nossas cabeças, portanto é sempre bom estar atento a elas. Você nunca sabe se elas não se jogarão sobre você. É claro que o prédio geralmente não possui elevador, apenas aqueles com mais de quatro andares então a aventura é inevitável.

 O local onde pretendemos nos instalar chama-se El-Rehab. Trata-se de um condomínio-cidade, parecido com o Alphaville que temos no Brasil, porém, afastado cerca de 15 km do Cairo. É um lugar muito bonito e oferece uma infra-estrutura muito boa. Lá dentro tem tudo que se pode imaginar: shoppings, restaurantes, supermercados, feiras, academia, etc. Gostei bastante do lugar, pois como ficarei muito sozinha durante o dia, vai ser mais fácil me virar por lá. Tudo fica perto e uma bicicletinha básica resolve meu problema com longas distâncias (e ajuda com outros problemas físicos também). Existem casas e apartamentos para vender e alugar, mas lógico, a maioria nas condições que descrevi acima. 

El Rehab City

Mobília de luxo egípcia

Estamos procurando nossa casinha já faz algumas semanas, mas estamos com algumas dificuldades. Além das descritas acima, temos mais um inconveniente pequeninho: a mobília. Senhooorrrrr!!!! O coisinha bem brega!!!! Não que eu seja muito fina ou muito “clean”, mas aqui é “over” demais! Vai gostar de móveis assim lah na… Eles chegam a ter três salas de estar do mesmo ambiente. Tudo claro, com muito OURO e muita COR (vermelho sangue, azul esmeralda e verde turquesa principalmente). As paredes por vezes são todas pintadas da mesma cor em todo o ambiente, as cortinas PRECISAM combinar com o tecido do sofá e os 1.450 tapetes espalhados pelo cômodo dão o toque final. 

Muito "ORO"

Os quartos são geralmente espaçosos, o problema geralmente é o roupeiro que mais parece com um caixão decorado. Às vezes lembra um daqueles carros do Transformers sabe? Só que em forma de mobília. As camas até que não são das piores (Box nem pensar) e geralmente são grandes. Algumas poderiam até me causar pesadelos, mas se deixar uma luzinha acesa eu acho que dá para  encarar. Eles também adoram uma penteadeirinha no quarto. Fico me imaginado no século 19 penteando as minhas madeixas com aquelas escovas antigas, passando pó de arroz em frente ao espelho hehehehehe. Mas até aí tudo bem, não vai ser meu lar eterno mesmo. 

Outro grande problema com relação às casas, em minha opinião, são as cozinhas. Eles adoram salas gigantescas, grandes espaços de área comum, mas quando se trata de cozinha é o oposto. São minúsculas. A geladeira geralmente fica do lado de fora porque não cabe lá dentro. Definitivamente eu não entendo isso porque esse povo aqui adora comer,mas fico pensando, como as mulheres conseguem cozinhar em um espaço que você mal consegue abrir os braços??? Entra de frente e sai de ré minha filha… Eu particularmente adoro cozinhas espaçosas então não preciso dizer a vocês a minha indignação com relação á isso! Sem contar a gordura impregnada nas paredes e no fogão, que parece não ver um “Veja” há séculos.   

Banheirinho básico

Os banheiros são outro ponto fraco. Até agora não vi um banheiro que me fizesse feliz. Vocês devem achar que eu sou uma chata, mas gente, não dá para querer!!! TODOS eles vêm com aquelas banheirinhas do tempo da nossa bisavó, plussssss, a cortininha de plástico que gruda na gente quando molhada. E a pia? igualzinha àquela de banheiro de posto de gasolina sabe? Lugar para por os creminhos nem pensar… Vou ter sorte se conseguir um espacinho para colocar a escova de dente. 

Bom, mas nem tudo está perdido. Hoje fomos visitar umas casas que realmente me fizeram ver uma luz no fim do túnel. Elas são um pouco grandes para duas pessoas, mas como eu espero a visita assídua de vocês por aqui, vai servir direitinho…  Eram iluminadas e arejadas, com uma mobília razoável e um jardim bem bonitinho até… Os móveis eram mais descentes (ainda assim reluzentes) e as cozinhas espaçosas. Ficamos muito felizes em encontrar algo onde poderemos enfim, chamar de lar (temporário). Agora vamos às negociações básicas de valores. Os preços não estavam bem dentro do que esperávamos, mas acredito que haverá flexibilidade na hora do acerto. Assim que tiver instalada mando uma fotinho para vocês. 

Beijão e até o próximo blog. 

ISSO DÁ PANO PRA MANGA!!!

Palavra do dia:

Fim: Halas

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«Dizei às fies que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atractivos, alem dos que (normalmente) aparecem; cubram o colo com os seus véus e não mostrem os seus atractivos, a não ser aos seus esposos,… que não agitem os seus pés, para que não chamem à atenção sobre os seus atractivos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos, a Deus, a fim de que vos salveis!»
Alcorão Verso 24:31

Hoje resolvi tratar de um assunto um tanto quanto polêmico, principalmente entre as mulheres: Os trajes muçulmanos.

Como bem vocês sabem, nos países islâmicos, as vestes são muito diferentes dos países onde a religião não é uma imposição, mas sim, uma opção. Por aqui predomina o excesso de discrição, principalmente com relação às mulheres muçulmanas mas, mesmo as cristãs se vestem de forma bastante recatada.

Mulheres no dia-a-dia

Dificilmente você verá mulheres usando regatas, saias curtas ou barriguinhas de fora por aqui. Mesmo nos dias mais quentes, onde as temperaturas chegam a 40°C as roupas são fechadas, cobrindo os braços e as pernas das mulheres. Ao contrário do Brasil, que chega a ser até mesmo exagerado, este tipo de comportamento por aqui chega a ser inaceitável.

Eu, como boa brasileira, estou tendo que me acostumar a estas novas mudanças. Não, não!! Não é o que vocês estão pensando aí. Estou me vestindo normalmente, claro que, com maiores cuidados. Na verdade o que ocorre é o seguinte: A palavra “estrangeira” parece estar estampada na minha testa, ao contrário do Rodrigo que volta e meia é confundido com os locais hehehe. Quando saio na rua, todos sabem que não sou muçulmana e por isto pegam mais leve comigo mas, isso não isenta alguns olhares mais recriminatórios, facilmente percebidos. Procuro usar camisetas longas, blusas sem decotes  ou saias curtas, mas me recuso a usar manga longa em dias quentes. Ta loco neh!

Burka

Realmente não sei como elas agüentam. Passam o dia embaixo do sol com aquelas mangas compridas. Sem contar as que usam os trajes totalmente fechados e de cor preta, conhecido como “Burka”, que cobre todo o rosto deixando apenas os olhinhos de fora. Agora pensem no cheirinho agradável no final do dia heim? Super gostosinho… Você sente de longe aquele odor de aca misturado com pele suada e sei lá mais o que. Mas isso é um mal dos egípcios eu acho, porque praticamente se torna geral em ambos os sexos. Para mim isso tem outro nome: “falta de banho.”

burkini

Outro traje interessante é o de banho, o tal do “burquini” criado por uma estilista  libanesa chamada Aheda Zanetti. Segundo ela, as mulheres se privavam da diversão da praia e dos esportes por falta de trajes adequados. Chega a ser divertido ver aquelas meninas usando aquilo (as mais velhas são mais raras de se ver). A foto ao lado diz tudo não é mesmo? Quanta liberdade de movimento heim?? As mães e esposas preferem ir à praia de roupa mesmo. Por vezes você vê uma ou outra entrando vestida no mar de burka ou calças jeans mesmo. Deve ser super agradável aquela roupa molhada grudando na pele.

Os homens obviamente usam calção e camiseta, por vezes, aparecem sem camisa mesmo. Eles dizem que não gostam de mulheres bronzeadas e se expondo de biquínis, mas basta passar uma turistinha refrestelada que os olhares se voltam para ela e de uma forma nada discreta. A justificativa deles é que é “diferente”. Diferente uma ova!!! Eles gostam mesmo da carne… Agora vai a mulher deles usar um shortinho para ver o que acontece!

Aliás, por aqui os homens adoram mexer com a mulher dos outros por assim dizer. Não querem saber se você é casada ou solteira, eles vêm pra cima mesmo. Claro que, conforme eu escrevi em um blog anterior, eles são mais respeitosos do que por aí. Mas as deles, ah essas sim são sagradas. Na verdade elas que se dão muito ao respeito mesmo. Claro que elas tem amigos homens, brincam e se divertem mas, tudo com muito cuidado. Os assuntos são bem pensados e as brincadeiras principalmente, são muito ingênuas. Até mesmo entre elas as conversas são recatadas.

Hijab

Nikab

O véu na cabeça é o mais costumeiro por aqui. Os dois principais tipos são: o Hijab ou Nikab. O primeiro deixa o rosto de descoberto cobrindo apenas os cabelos e por vezes o pescoço. O segundo deixa apenas os olhos de fora. Dificilmente você verá uma muçulmana deixando os cabelos ao vento. Apenas em casa elas são permitidas de andar à vontade. Às vezes, mas apenas em seus locais de trabalho, onde geralmente freqüentam muitos turistas, iremos encontrar algumas mulheres muçulmanas com os cabelos a mostra, mas isso por política do lugar mesmo.

O significado do véu para as mulheres muçulmanas é bastante simples: Ele faz com que elas sejam reconhecidas pelo seu espírito, não pela sua aparência. Então, cumprindo as regras do Alcorão, elas se cobrem para não revelar seus atributos físicos, despertando o desejo dos homens. Apenas se despem para seus maridos. Com o véu, elas se sentem dignas, valorizadas e respeitadas. Por vezes me pergunto se isto é mesmo verdade.

O que acontece, em minha opinião, é que tantos anos de imposição cultural e religiosa acabaram por fazer das mulheres islâmicas seres conformados. Elas simplesmente aceitam as suas condições e aprenderam a conviver com isso de maneira pacífica. Realmente elas não são tão desvalorizadas assim, pelo menos aqui no Egito. Os homens em sua maioria, as respeitam e entendem seu papel, mas mesmo assim, acredito que não é o suficiente para elas. Eu não gostaria de ser reconhecida apenas dentro de meu lar. Gosto de ser ouvida, gosto de poder criticar e gosto de poder me portar de acordo com minhas idéias.

 As mulheres tidas como “revolucionárias” por aqui, são as que se criaram em contato com o mudo ocidental, aquelas que moram na Europa ou nas Américas. Elas defendem os seus costumes muito mais de uma forma política do que como expressão de liberdade. Quando você tem opção de escolher seus caminhos, fica muito mais fácil não é verdade?. Mas me pergunto, por que será que foi preciso elas saírem de seus países para poder se expressar?

Beijão!!!

UMA JANTINHA BÁSICA

Palavra do dia:

Gelo: Tahlak

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Desde que cheguei a primeira vez aqui no hotel, a camareira sempre foi muito simpática comigo. Aos poucos fomos nos tornando amigas e ela tem sido importante no meu dia a dia. Imagine vocês que passo meus dias praticamente sozinha pois o Rodrigo chega somente à noitinha, chega um momento que é preciso conversar com alguém neh? Essa moça então, tem me feito uma boa companhia. Em reconhecimento à sua amizade, aceitei o convite de jantar na casa dela o que foi uma experiência muito legal, então resolvi contar à vocês. Vou omitir os nomes por uma questão de respeito ok?

Combinamos de nos encontrar em frente a um supermercado em Suez, aquela cidade perto daqui que já comentei anteriormente. Pedi ao motorista que me pegasse no hotel as 17:30 hs. pois pretendíamos dar uma voltinha pela Cornish (beira-mar) antes da janta o que acabou não acontecendo. A menina é uma Muçulmana de 21 anos e por esta razão meu motorista (cristão) estava preocupadíssimo, cheio de recomendações…

– Miss Andréia, se a casa estiver com muitos homens não entre;
– Miss Andréia, cuidado para eles não te prenderem dentro da casa;
– Miss Andréia se a sra. se sentir mal ou com medo me ligue…

 Obviamente que já estando acostumada com esta rivalidade religiosa não dei muita bola. Achei legal a preocupação dele mas sabia que ela era uma moça de bom coração e que tinha as melhores das intenções comigo. Ele me ligou quatro vezes aquela noite e não sai da frente da porta do prédio a noite inteira.

 “ Aparentemente, segundo os cristãos, os muçulmanos tem o hábito de levar moças de outra religião para suas casas e gravar vídeos de sexo com elas com a intenção de forçá-las a se converterem ao Alcorão.”

 Bom, nos encontramos no lugar marcado e a minha amiguinha estava com uma outra moça que também trabalha aqui no hotel, que não falava uma palavra em Inglês. Não que ela seja nenhuma expert, mas pelo menos a gente se entende. Tive a impressão que o motorista foi fazendo um interrogatório nela até a casa, mas, não entendia nenhuma palavra mesmo, então somente ria.

Típico prédio egípcio

No caminho até o prédio, me senti como se estivesse num labirinto dentro do lixão público da cidade. De onde vem tanta  sujeira, meu Deus!!! Passamos por ruas de chão batido cobertas por sacos e mais sacos de lixo. Acho que o lixeiro não curte muito trabalho por aqui! Quando cheguei, confesso… Fiquei com medo de entrar. O prédio de quatro andares parecia ser uma ruína dos tempos da Cleópatra. As paredes rachadas cobertas apenas pelo reboco, tijolos quebrados e a escada em estado precário de conservação.. Mais tarde fiquei sabendo que o pai dela era o arquiteto. Estava explicado já que ele é carpinteiro e segurança de uma escola.

 Quando entrei na casa senti uma certa tristeza. Era tudo muito pobre, velho e danificado. Estavam todos ansiosamente me esperando, como se fossem receber alguém da realeza. Percebi naquele momento como foi importante para aquela menina me receber em sua casa. O pai estava apenas aguardando minha chegada para ir trabalhar, a mãe estava na cozinha preparando a janta e o irmão caçula parado que nem um dois de paus, congelado, esperando por mim. 

Galabeia

Sentei-me num sofazinho todo rasgado, em uma salinha separada. Foi a primeira vez que vi os cabelos da moça pois ela  costuma andar sempre com o véu. A outra moça não tirou o hijab pois o pai estava presente. Ficamos conversando por alguns instantes e aquela situação de desconforto inicial foi passando lentamente. A mãe da Dina é uma senhora de 47 anos bastante conservadora. Ela estava usando uma galabeia ( espécie de vestido inteiro) bastante velha, mas parecia que ela havia escolhido aquela roupa cuidadosamente. Infelizmente seus traços eram de uma senhora de 70 anos.

Os mais velhos por aqui parecem não dar a menor importância para a aparência. Aliás, minha teoria é que as mulheres somente se cuidam até o dia do casamento. Acho que devido ao baixíssimo grau de infidelidade, elas ficam tão seguras que deixam de se importar com a vaidade. “

O pai também não estava exatamente conservado em formol, por assim dizer, seu semblante era bastante envelhecido. Apenas descrevo isto para que vocês tenham uma noção da humildade e da pobreza das pessoas por aqui, sei que as aparências estão longe de descrever o coração das pessoas, ao contrário, fui extremamente bem recebida por todos naquele lar.

Não eram nem 18:30 hs. quando a senhora serviu o jantar. Detalhe: Eu havia almoçado as quatro horas da tarde. Beeemmmm legallll!!! A mesa de ferro, parecida com essas de bar, estava coberta com jornal. Haviam quatro tigelas de arroz branco, quatro de peixe cozido com tomate picado e uma única tigela de uma salada verde que confesso nunca havia comido antes. Agora a pergunta: Cadê os pratos?? Parece que por aqui este artefato não é muito apreciado. Cada um come direto da tigela, utilizando-se de uma colher e um garfo. Esperei que todos começassem a comer para depois fazer igual. Confesso que o peixe estava bem bom, comparado com as refeições típicas do hotel, mas em compensação a saladinha…

Percebi que elas não tomam líquidos junto com a comida, mas para mim isto é impossível. Pedi a minha amiga por um copo d’água sem se quer passar pela minha cabeça, de onde esta viria. Advinha?? Isso mesmo, direto da torneirinha básica!!! Talvez aí no Brasil isso não seja o pior dos problemas, mas por aqui meus amigos, acreditem, é sério o negócio. Não tinha como eu reclamar né, então aceitei a água e tomei uns três golinhos para não fazer desfeita.

Comi a metade do prato de arroz e metade do peixe, enquanto isso a senhora colocava as mãos na comida da outra menina para tirar as espinhas, assim, como quem enfia o dedo no prato de sopa dos outros. Super higiênico! Graças a Deus ela não fez isso comigo, mas ficava me alcançando as folhas da salada (com as mãos) insistindo para que eu comesse. Aquilo tinha gosto de capim com terra e eu fazia aquela carinha de chega por favor. Como eu estava de pança cheia, não conseguia mais comer e isso foi inaceitável para elas. Ficava repetindo que estava ótimo mas que realmente não cabia mais. Aí inventei uma história de que brasileiro come pouco e que por isso a gente tem o estomago pequeno. Bom, colou! Mas a mãe dela não gostou muito.

Voltamos a sentar na sala e neste momento entra novamente o pai pela porta. Não entendi bem, mas ele sentou ao lado da mesa e começou a conversar comigo. Fui entender depois que ele valtara o trabalho por minha causa! Te mete!!! Tentava me ensinar o árabe insistentemente, mas acabou se tornando um bom professor. Conversamos sobre tudo. Sempre os mesmos assuntos sobre religião, filhos, cultura e obviamente sobre futebol! De repente a mãe me pergunta assim:

– Você usa biquíni???
– Nãooooooo!!!!! A Andréia detesta biquíni. – Respondeu a minha amiga antes de eu poder pensar a respeito! 

Fazer o que neh?

 – Não senhora, não uso não! (ahãmmmmmm!!)

O papo sobre religião com o pai também foi difícil de ser acertado porque eles não entendem a falta de crença dos outros. Mas deu tudo certo porque mãe disse que eu tinha um bom coração e era tudo o que importava! Ponto para mim!!!

Enquanto os assuntos corriam, eles não paravam de oferecer comida. Era frutas, sucos, salgadinhos que não acabavam mais. Mais tarde fiquei sabendo que eles fazem isso para que os convidados não pensem que eles são mesquinhos. Muito curioso isso. Cada não que eu dizia era um problema então acabei aceitando tudo o que vinha. Não preciso dizer que meu estômago não estava muito feliz com a situação. Quando cheguei em casa ele se vingou claramente!

Na hora de ir embora eles pediram para que tirássemos algumas fotos, enquanto a mãe me mostrava TODAS as fotos de casamento. Ela foi trocar de Galebia para tirar as fotos. Para agradar, tirei algumas fotos com o véu na cabeça. Me disseram que eu tinha tudo para ser muçulmana (quem me conhece pode começar a rir que eu deixo), que eu era muito “gamila” (bonita em árabe). Tá bom!!! Tiramos as fotos e logo em seguida nos despedimos.

Presentinho Árabe

 Eu confesso que voltei para casa muito feliz. Havia passado por uma experiência única e muito divertida. Tive que prometer voltar para uma nova visita e desta vez, levar o Rodrigo (hehehe). Eles foram muito gentis e educados comigo, me respeitaram muito, ao contrário do que se pode imaginar. Me senti realmente honrada pelo convite. Até ganhei um presente. Uma espécie de porta-jóias de porcelana com algumas palavras do Alcorão. Segundo a tradição, ele serve para colocar docinhos para os visitantes do bebê recém-nascido. Será que era algum tipo de pressão??? Hummm…

Beijão e até a próxima.

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