UMA JANTINHA BÁSICA

Palavra do dia:

Gelo: Tahlak

*********************************************************************************************************************

 

Desde que cheguei a primeira vez aqui no hotel, a camareira sempre foi muito simpática comigo. Aos poucos fomos nos tornando amigas e ela tem sido importante no meu dia a dia. Imagine vocês que passo meus dias praticamente sozinha pois o Rodrigo chega somente à noitinha, chega um momento que é preciso conversar com alguém neh? Essa moça então, tem me feito uma boa companhia. Em reconhecimento à sua amizade, aceitei o convite de jantar na casa dela o que foi uma experiência muito legal, então resolvi contar à vocês. Vou omitir os nomes por uma questão de respeito ok?

Combinamos de nos encontrar em frente a um supermercado em Suez, aquela cidade perto daqui que já comentei anteriormente. Pedi ao motorista que me pegasse no hotel as 17:30 hs. pois pretendíamos dar uma voltinha pela Cornish (beira-mar) antes da janta o que acabou não acontecendo. A menina é uma Muçulmana de 21 anos e por esta razão meu motorista (cristão) estava preocupadíssimo, cheio de recomendações…

– Miss Andréia, se a casa estiver com muitos homens não entre;
– Miss Andréia, cuidado para eles não te prenderem dentro da casa;
– Miss Andréia se a sra. se sentir mal ou com medo me ligue…

 Obviamente que já estando acostumada com esta rivalidade religiosa não dei muita bola. Achei legal a preocupação dele mas sabia que ela era uma moça de bom coração e que tinha as melhores das intenções comigo. Ele me ligou quatro vezes aquela noite e não sai da frente da porta do prédio a noite inteira.

 “ Aparentemente, segundo os cristãos, os muçulmanos tem o hábito de levar moças de outra religião para suas casas e gravar vídeos de sexo com elas com a intenção de forçá-las a se converterem ao Alcorão.”

 Bom, nos encontramos no lugar marcado e a minha amiguinha estava com uma outra moça que também trabalha aqui no hotel, que não falava uma palavra em Inglês. Não que ela seja nenhuma expert, mas pelo menos a gente se entende. Tive a impressão que o motorista foi fazendo um interrogatório nela até a casa, mas, não entendia nenhuma palavra mesmo, então somente ria.

Típico prédio egípcio

No caminho até o prédio, me senti como se estivesse num labirinto dentro do lixão público da cidade. De onde vem tanta  sujeira, meu Deus!!! Passamos por ruas de chão batido cobertas por sacos e mais sacos de lixo. Acho que o lixeiro não curte muito trabalho por aqui! Quando cheguei, confesso… Fiquei com medo de entrar. O prédio de quatro andares parecia ser uma ruína dos tempos da Cleópatra. As paredes rachadas cobertas apenas pelo reboco, tijolos quebrados e a escada em estado precário de conservação.. Mais tarde fiquei sabendo que o pai dela era o arquiteto. Estava explicado já que ele é carpinteiro e segurança de uma escola.

 Quando entrei na casa senti uma certa tristeza. Era tudo muito pobre, velho e danificado. Estavam todos ansiosamente me esperando, como se fossem receber alguém da realeza. Percebi naquele momento como foi importante para aquela menina me receber em sua casa. O pai estava apenas aguardando minha chegada para ir trabalhar, a mãe estava na cozinha preparando a janta e o irmão caçula parado que nem um dois de paus, congelado, esperando por mim. 

Galabeia

Sentei-me num sofazinho todo rasgado, em uma salinha separada. Foi a primeira vez que vi os cabelos da moça pois ela  costuma andar sempre com o véu. A outra moça não tirou o hijab pois o pai estava presente. Ficamos conversando por alguns instantes e aquela situação de desconforto inicial foi passando lentamente. A mãe da Dina é uma senhora de 47 anos bastante conservadora. Ela estava usando uma galabeia ( espécie de vestido inteiro) bastante velha, mas parecia que ela havia escolhido aquela roupa cuidadosamente. Infelizmente seus traços eram de uma senhora de 70 anos.

Os mais velhos por aqui parecem não dar a menor importância para a aparência. Aliás, minha teoria é que as mulheres somente se cuidam até o dia do casamento. Acho que devido ao baixíssimo grau de infidelidade, elas ficam tão seguras que deixam de se importar com a vaidade. “

O pai também não estava exatamente conservado em formol, por assim dizer, seu semblante era bastante envelhecido. Apenas descrevo isto para que vocês tenham uma noção da humildade e da pobreza das pessoas por aqui, sei que as aparências estão longe de descrever o coração das pessoas, ao contrário, fui extremamente bem recebida por todos naquele lar.

Não eram nem 18:30 hs. quando a senhora serviu o jantar. Detalhe: Eu havia almoçado as quatro horas da tarde. Beeemmmm legallll!!! A mesa de ferro, parecida com essas de bar, estava coberta com jornal. Haviam quatro tigelas de arroz branco, quatro de peixe cozido com tomate picado e uma única tigela de uma salada verde que confesso nunca havia comido antes. Agora a pergunta: Cadê os pratos?? Parece que por aqui este artefato não é muito apreciado. Cada um come direto da tigela, utilizando-se de uma colher e um garfo. Esperei que todos começassem a comer para depois fazer igual. Confesso que o peixe estava bem bom, comparado com as refeições típicas do hotel, mas em compensação a saladinha…

Percebi que elas não tomam líquidos junto com a comida, mas para mim isto é impossível. Pedi a minha amiga por um copo d’água sem se quer passar pela minha cabeça, de onde esta viria. Advinha?? Isso mesmo, direto da torneirinha básica!!! Talvez aí no Brasil isso não seja o pior dos problemas, mas por aqui meus amigos, acreditem, é sério o negócio. Não tinha como eu reclamar né, então aceitei a água e tomei uns três golinhos para não fazer desfeita.

Comi a metade do prato de arroz e metade do peixe, enquanto isso a senhora colocava as mãos na comida da outra menina para tirar as espinhas, assim, como quem enfia o dedo no prato de sopa dos outros. Super higiênico! Graças a Deus ela não fez isso comigo, mas ficava me alcançando as folhas da salada (com as mãos) insistindo para que eu comesse. Aquilo tinha gosto de capim com terra e eu fazia aquela carinha de chega por favor. Como eu estava de pança cheia, não conseguia mais comer e isso foi inaceitável para elas. Ficava repetindo que estava ótimo mas que realmente não cabia mais. Aí inventei uma história de que brasileiro come pouco e que por isso a gente tem o estomago pequeno. Bom, colou! Mas a mãe dela não gostou muito.

Voltamos a sentar na sala e neste momento entra novamente o pai pela porta. Não entendi bem, mas ele sentou ao lado da mesa e começou a conversar comigo. Fui entender depois que ele valtara o trabalho por minha causa! Te mete!!! Tentava me ensinar o árabe insistentemente, mas acabou se tornando um bom professor. Conversamos sobre tudo. Sempre os mesmos assuntos sobre religião, filhos, cultura e obviamente sobre futebol! De repente a mãe me pergunta assim:

– Você usa biquíni???
– Nãooooooo!!!!! A Andréia detesta biquíni. – Respondeu a minha amiga antes de eu poder pensar a respeito! 

Fazer o que neh?

 – Não senhora, não uso não! (ahãmmmmmm!!)

O papo sobre religião com o pai também foi difícil de ser acertado porque eles não entendem a falta de crença dos outros. Mas deu tudo certo porque mãe disse que eu tinha um bom coração e era tudo o que importava! Ponto para mim!!!

Enquanto os assuntos corriam, eles não paravam de oferecer comida. Era frutas, sucos, salgadinhos que não acabavam mais. Mais tarde fiquei sabendo que eles fazem isso para que os convidados não pensem que eles são mesquinhos. Muito curioso isso. Cada não que eu dizia era um problema então acabei aceitando tudo o que vinha. Não preciso dizer que meu estômago não estava muito feliz com a situação. Quando cheguei em casa ele se vingou claramente!

Na hora de ir embora eles pediram para que tirássemos algumas fotos, enquanto a mãe me mostrava TODAS as fotos de casamento. Ela foi trocar de Galebia para tirar as fotos. Para agradar, tirei algumas fotos com o véu na cabeça. Me disseram que eu tinha tudo para ser muçulmana (quem me conhece pode começar a rir que eu deixo), que eu era muito “gamila” (bonita em árabe). Tá bom!!! Tiramos as fotos e logo em seguida nos despedimos.

Presentinho Árabe

 Eu confesso que voltei para casa muito feliz. Havia passado por uma experiência única e muito divertida. Tive que prometer voltar para uma nova visita e desta vez, levar o Rodrigo (hehehe). Eles foram muito gentis e educados comigo, me respeitaram muito, ao contrário do que se pode imaginar. Me senti realmente honrada pelo convite. Até ganhei um presente. Uma espécie de porta-jóias de porcelana com algumas palavras do Alcorão. Segundo a tradição, ele serve para colocar docinhos para os visitantes do bebê recém-nascido. Será que era algum tipo de pressão??? Hummm…

Beijão e até a próxima.

2 comentários (+add yours?)

  1. Carol
    Fev 01, 2010 @ 15:04:34

    Hahahaha…. vc nem poderia mesmo falar que usa biquini… pois eh um tapa sexo, né, vamos combinar…. brincadeira.. bjs

    Responder

  2. Daniel M. Jesus
    Fev 01, 2010 @ 13:47:49

    Andréia.
    Muito 10 esta história.

    Grande beijo de sus amigo

    Daniel

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Quantos já passaram por aqui...

  • 336,119 acessos

del.icio.us

The best

RSS A História de uma gata

  • Memorial 19/05/2016
    Tá tudo certo. Resolvido. Jurado e sacramentado. Até que percebo uma leve alteração na respiração ao estacionar o carro e meu coração acelerar no elevador e bater na garganta quando chego na porta. Ela abre. Eu disfarço. Faço uma piada, enquanto minha mente me joga, sem dó, frames de sons, momentos e sensações. Me lembra que voltei a brotar ali .E eu penso n […]
    noreply@blogger.com (Fernanda Copatti)

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 354 outros seguidores

%d bloggers like this: